terça-feira, 20 de novembro de 2012

Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love, Abbas Kiarostami, 2012)



O cineasta iraniano Abbas Kiarostami parece despertar um certo tédio e incompreensão em grande parte do público e da crítica, mas também conta com uma grande admiração de uma audiência mais restrita, embora influente. Seu último e belo filme, "Like Someone in Love", não parece reverter essa situação. A história da relação entre um velho intelectual e uma jovem garota de programa no Japão debutou em Cannes este ano e dividiu a crítica, que viu ali sensibilidade e elegância, e também frouxidão e reticência.
Todos os elementos do cinema de Kiarostami estão lá, aliados, desta vez, a uma belíssima trilha sonora, com Ella Fitzgerald fazendo uma preciosa contribuição. Os personagens e a trama são calmamente introduzidos e a narrativa jamais se conclui inteiramente. Aqui, o iraniano apresenta uma série de situações conflituosas que vão precariamente se equilibrando, até explodir, de maneira quase literal, ao final do filme. Os conflitos nascem justamente do fato de os personagens não estarem verdadeiramente apaixonados, mas agirem como se estivessem. E é essa diferença que desequilibra tudo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Neil Young, 67




Neil Young completa hoje 67 anos. E 2012 foi um ano bastante prolífico para ele, que lançou sua autobiografia e dois bons álbuns com a banda Crazy Horse, o folk "Americana" e o mais roqueiro "Psychadelic Pill". Dois discos que devem ser escutados. Do último, saiu aquela que deve ser uma das mais belas canções do ano, "Ramada Inn", que rendeu ainda um ótimo vídeo.
A "Trip", em seu site, comemora o aniversário do genial canadense com uma incrível entrevista dele durante BookExpo America, em junho, para a Patti Smith (que, por sinal, também lançou um ótimo disco este ano, "Banga", talvez ainda melhor que os dois do Neil Young). O presente é nosso.

domingo, 11 de novembro de 2012

A Turma do Charlie Brown (Race For Your Life, Charlie Brown, Bill Melendez and Phil Roman, 1977)



Nada melhor que um filme de animação realmente infantil, mas que trata as crianças com muito respeito, ao fazer uso de um roteiro bem amarrado, com personagens bem construídos e uma mensagem final edificante (não haveria como ser diferente), mas não necessariamente redentora ao extremo. O longa de 1977 da turma do "peanut" Charlie Brown, "Race For Your Life, Charlie Brown", apresenta os clássicos personagens de Charles M. Schulz em um acampamento de férias, competindo em uma corrida de botes com outros personagens, principalmente três garotos maiores e malvados. O enredo básico privilegia o traçado simples dos personagens, reafirma a personalidade de cada um dos garotos (e, claro, do cão Snoopy e do pássaro Woodstock) e tem uma belíssima trilha sonora, bebendo no folk e no jazz. Schulz e os diretores Melendez e Roman, numa época em que a abordagem infantil era bem diferente desta dos dias que correm, ao ironizarem temas adultos, como auto-estima, liderança e democracia, apostaram que estavam falando com crianças espertas. Eles estavam, e essa aposta bem que poderia ser constantemente renovada por outros animadores.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Endorsement is Free



O "Estadão" publicou na edição de hoje um editorial (bastante ingênuo, diga-se de passagem) apontando as razões pelas quais Barack Obama deveria ser reeleito presidente dos Estados Unidos. O jornal não fez nada distinto do que já é praticado há tempos por grande parte da imprensa internacional, mais notadamente aquela anglo-saxã (aliás, sobre as eleições presidenciais americanas "The Economist" fez uma brilhante recomendação de apoio a Obama, tal qual a "New Yorker", que, por sua vez, foi demasiado condescendente com o incumbente). Nada de errado aí, portanto. Só que fica uma pergunta: por que o jornal manifesta claramente seu apoio a um candidato em uma eleição nos Estados Unidos, mas é reticente em fazê-lo em eleições em seu país? O mesmo "Estadão", na véspera do segundo turno das eleições municipais deste ano, publicou um editorial no qual mostrava sem muita sutileza suas preferências eleitorais (ou, antes, suas "não-preferências"), mas não o fez de maneira direta, como seria de se esperar - isto é, dizendo claramente qual candidato estaria mais apto para o cargo, justamente como declarou agora, em sua defesa de Obama. Entendo que a história de nossa imprensa nunca foi lá muito propícia à liberdade e clareza de opinião, mas tenho certeza de que já passou do momento de seus hábitos serem revistos e essa se tornar mais assertiva e transparente. Mais democrática, pois.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Moonrise Kingdom (Wes Anderson, 2012)



Wes Anderson é um dos poucos cineastas da atualidade que conseguiram criar um mundo próprio que perpassa seus filmes, a exemplo de Tim Burton, Quentin Tarantino ou David Lynch. É um mundo com um visual vintage, personagens blasé, trilha sonora cuidadosamente passadista e um tom predominantemente melancólico. Essas características estão presentes de maneira intensa em seu novo filme, "Moonrise Kingdom", seu melhor trabalho desde "Os Excêntricos Tenenbaums"/"The Royal Tenenbaums" (2001). A história de dois problemáticos pré-adolescentes que fogem de casa para ficar juntos, em uma pequena ilha fictícia no ano de 1965, é de uma delicadeza surpreendente para um autor que parecia se preocupar mais com a forma do que com o conteúdo de seus últimos trabalhos. Aqui ele parece entender bem o universo daqueles garotos que buscam fugir das relações pouco sinceras do mundo dos adultos, que eles sutilmente estavam começando a reproduzir. Anderson invade esse universo por meio de sua já característica câmera em zoom e do onipresente binóculo da garota Suzy, e consegue nos entregar uma saborosa história de amadurecimento, tanto do próprio autor como dos adultos, que são mais infantis do que os próprios moleques.  

domingo, 4 de novembro de 2012

Alois Nebel (Tomáš Luňák, 2011)



Se, como já comentei anteriormente, o hiper-realismo de parte parte das animações atuais tendem a restringir as diversas nuances de suas produções, por outro lado, o uso de elementos de animação podem enriquecer as narrativas do chamado "cinema de carne e osso". O tcheco "Alois Nebel", adapatado por processo de rotoscopia da trilogia de graphic novel homônima, utiliza justamente essas características para imprimir com força os aspectos oníricos e alucinatórios da história de um despachante de trem de um pequeno vilarejo na Tchecoslováquia de fins de 1989 enviado para uma clínica de saúde mental ao confundir constantemente alucinação e realidade, presente e passado.
O filme é, de fato, uma seca reflexão da transição do comunismo para os novos dias na Tchecoslováquia, onde o tempo está constantemente sombrio e fechado, os cenários estão desmoronando, os trens descarrilados e as notícias da transição política chegam aos passivos personagens por meio de longínquas transmissões radiofônicas. É o novo se impondo em um contexto onde o passado sequer foi devidamente assimilado, as feridas da história não se cicatrizaram completamente. Luňák nos mostra de maneira pouco condescendente uma realidade que mudou tão velozmente e tão impositivamente que poucos conseguiram assimilar aquele novo mundo real.