terça-feira, 11 de março de 2014

David Foster Wallace

"Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou pra casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo."

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Synecdoche, New York" (Charlie Kaufman, 2008)



"Everything is more complicated than you think, you only see a tenth of what is true. There are a million little strings attached to every choice you make, you can destroy your life every time you choose. But maybe you won't know for twenty years and you may never ever trace it to its source and you only get one chance to play it out... Just try and figure out your own divorce.

And they say there is no fate; but there is: it is what you create. And even though the world goes on for eons and eons, you are only here for a fraction of second, most of your time is spent being dead or not yet born; but while alive, you wait in vain, wasting years, for a phone call or a letter or a look, from someone or something to make it alright... But it never comes, but it seems to but it doesn't really.

So you spend your time in vague regret or vaguer hope that something good will come along, something to make you feel connected, something to make you feel whole, something to make you feel loved; and the truth is: I feel so angry! And the truth is: I feel so fucking sad! And the truth is: I've felt so fucking hurt for so fucking long and for just as long I've been pretending I'm ok, just to get along just for... I don't know why.

Maybe because no one wants to hear about my misery; because they have their own.

Well: fuck everybody!

Amen."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Ano de Leos Carax, Neil Young e Daniel Galera





Considero Leos Carax e seu "Holy Motors", Daniel Galera e seu "Barba Ensopada de Sangue" e Neil Young e sua autobiografia "Waging Heavy Peace" mais seus dois discos com a banda Crazy Horse, "Americana" e "Psychadelic Pill" os destaques de um bom 2012 no cinema, na literatura e na música.
"Holy Motors" subverteu todas as regras da narrativa convencional para, metalinguisticamente, falar sobre representação, mais até do que interpretação. Cerebral, divertido, esteticamente belo e ousado, é o filme mais original dos últimos anos.
Neil Young esteve presente de maneira intensa no ano que se passou. Lançou sua não cronológica autobiografia que é um show de seu estilo peculiar, e os discos de folk "Americana" e o roqueiro "Psychadelic Pill", que trouxe a mais bela canção de 2012, "Ramada Inn". Certos caras sempre ficam no topo.
E Daniel Galera publicou o mais festejado romance brasileiro do ano. Não era pra menos. Uma obra incrivelmente segura, madura e instigante, que mistura elementos policiais em um clima regionalisticamente cosmopolita. Desde quando li "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, há uns 10 anos, um livro brasileiro não me interessava tanto.
Agora, que venha 2013.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love, Abbas Kiarostami, 2012)



O cineasta iraniano Abbas Kiarostami parece despertar um certo tédio e incompreensão em grande parte do público e da crítica, mas também conta com uma grande admiração de uma audiência mais restrita, embora influente. Seu último e belo filme, "Like Someone in Love", não parece reverter essa situação. A história da relação entre um velho intelectual e uma jovem garota de programa no Japão debutou em Cannes este ano e dividiu a crítica, que viu ali sensibilidade e elegância, e também frouxidão e reticência.
Todos os elementos do cinema de Kiarostami estão lá, aliados, desta vez, a uma belíssima trilha sonora, com Ella Fitzgerald fazendo uma preciosa contribuição. Os personagens e a trama são calmamente introduzidos e a narrativa jamais se conclui inteiramente. Aqui, o iraniano apresenta uma série de situações conflituosas que vão precariamente se equilibrando, até explodir, de maneira quase literal, ao final do filme. Os conflitos nascem justamente do fato de os personagens não estarem verdadeiramente apaixonados, mas agirem como se estivessem. E é essa diferença que desequilibra tudo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Neil Young, 67




Neil Young completa hoje 67 anos. E 2012 foi um ano bastante prolífico para ele, que lançou sua autobiografia e dois bons álbuns com a banda Crazy Horse, o folk "Americana" e o mais roqueiro "Psychadelic Pill". Dois discos que devem ser escutados. Do último, saiu aquela que deve ser uma das mais belas canções do ano, "Ramada Inn", que rendeu ainda um ótimo vídeo.
A "Trip", em seu site, comemora o aniversário do genial canadense com uma incrível entrevista dele durante BookExpo America, em junho, para a Patti Smith (que, por sinal, também lançou um ótimo disco este ano, "Banga", talvez ainda melhor que os dois do Neil Young). O presente é nosso.

domingo, 11 de novembro de 2012

A Turma do Charlie Brown (Race For Your Life, Charlie Brown, Bill Melendez and Phil Roman, 1977)



Nada melhor que um filme de animação realmente infantil, mas que trata as crianças com muito respeito, ao fazer uso de um roteiro bem amarrado, com personagens bem construídos e uma mensagem final edificante (não haveria como ser diferente), mas não necessariamente redentora ao extremo. O longa de 1977 da turma do "peanut" Charlie Brown, "Race For Your Life, Charlie Brown", apresenta os clássicos personagens de Charles M. Schulz em um acampamento de férias, competindo em uma corrida de botes com outros personagens, principalmente três garotos maiores e malvados. O enredo básico privilegia o traçado simples dos personagens, reafirma a personalidade de cada um dos garotos (e, claro, do cão Snoopy e do pássaro Woodstock) e tem uma belíssima trilha sonora, bebendo no folk e no jazz. Schulz e os diretores Melendez e Roman, numa época em que a abordagem infantil era bem diferente desta dos dias que correm, ao ironizarem temas adultos, como auto-estima, liderança e democracia, apostaram que estavam falando com crianças espertas. Eles estavam, e essa aposta bem que poderia ser constantemente renovada por outros animadores.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Endorsement is Free



O "Estadão" publicou na edição de hoje um editorial (bastante ingênuo, diga-se de passagem) apontando as razões pelas quais Barack Obama deveria ser reeleito presidente dos Estados Unidos. O jornal não fez nada distinto do que já é praticado há tempos por grande parte da imprensa internacional, mais notadamente aquela anglo-saxã (aliás, sobre as eleições presidenciais americanas "The Economist" fez uma brilhante recomendação de apoio a Obama, tal qual a "New Yorker", que, por sua vez, foi demasiado condescendente com o incumbente). Nada de errado aí, portanto. Só que fica uma pergunta: por que o jornal manifesta claramente seu apoio a um candidato em uma eleição nos Estados Unidos, mas é reticente em fazê-lo em eleições em seu país? O mesmo "Estadão", na véspera do segundo turno das eleições municipais deste ano, publicou um editorial no qual mostrava sem muita sutileza suas preferências eleitorais (ou, antes, suas "não-preferências"), mas não o fez de maneira direta, como seria de se esperar - isto é, dizendo claramente qual candidato estaria mais apto para o cargo, justamente como declarou agora, em sua defesa de Obama. Entendo que a história de nossa imprensa nunca foi lá muito propícia à liberdade e clareza de opinião, mas tenho certeza de que já passou do momento de seus hábitos serem revistos e essa se tornar mais assertiva e transparente. Mais democrática, pois.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Moonrise Kingdom (Wes Anderson, 2012)



Wes Anderson é um dos poucos cineastas da atualidade que conseguiram criar um mundo próprio que perpassa seus filmes, a exemplo de Tim Burton, Quentin Tarantino ou David Lynch. É um mundo com um visual vintage, personagens blasé, trilha sonora cuidadosamente passadista e um tom predominantemente melancólico. Essas características estão presentes de maneira intensa em seu novo filme, "Moonrise Kingdom", seu melhor trabalho desde "Os Excêntricos Tenenbaums"/"The Royal Tenenbaums" (2001). A história de dois problemáticos pré-adolescentes que fogem de casa para ficar juntos, em uma pequena ilha fictícia no ano de 1965, é de uma delicadeza surpreendente para um autor que parecia se preocupar mais com a forma do que com o conteúdo de seus últimos trabalhos. Aqui ele parece entender bem o universo daqueles garotos que buscam fugir das relações pouco sinceras do mundo dos adultos, que eles sutilmente estavam começando a reproduzir. Anderson invade esse universo por meio de sua já característica câmera em zoom e do onipresente binóculo da garota Suzy, e consegue nos entregar uma saborosa história de amadurecimento, tanto do próprio autor como dos adultos, que são mais infantis do que os próprios moleques.  

domingo, 4 de novembro de 2012

Alois Nebel (Tomáš Luňák, 2011)



Se, como já comentei anteriormente, o hiper-realismo de parte parte das animações atuais tendem a restringir as diversas nuances de suas produções, por outro lado, o uso de elementos de animação podem enriquecer as narrativas do chamado "cinema de carne e osso". O tcheco "Alois Nebel", adapatado por processo de rotoscopia da trilogia de graphic novel homônima, utiliza justamente essas características para imprimir com força os aspectos oníricos e alucinatórios da história de um despachante de trem de um pequeno vilarejo na Tchecoslováquia de fins de 1989 enviado para uma clínica de saúde mental ao confundir constantemente alucinação e realidade, presente e passado.
O filme é, de fato, uma seca reflexão da transição do comunismo para os novos dias na Tchecoslováquia, onde o tempo está constantemente sombrio e fechado, os cenários estão desmoronando, os trens descarrilados e as notícias da transição política chegam aos passivos personagens por meio de longínquas transmissões radiofônicas. É o novo se impondo em um contexto onde o passado sequer foi devidamente assimilado, as feridas da história não se cicatrizaram completamente. Luňák nos mostra de maneira pouco condescendente uma realidade que mudou tão velozmente e tão impositivamente que poucos conseguiram assimilar aquele novo mundo real.    

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Na Neblina (В тумане, Sergei Loznitsa, 2012)



Embora tivesse sido lançado originalmente em 2010, por uma dessas coincidências, só fui assistir ao filme "Minha Felicidade"/"My Joy", do cineasta bielo-russo Sergei Loznitsa este ano, em pleno período turbulento da posse de Vladmir Putin para mais um mandato como presidente da Rússia. Período em que as contradições da ex-República Soviética foram expostas como nunca antes. O filme representou um ótimo diálogo com o momento político, ao radiografar os recônditos de uma violência generalizada, forjada por anos, décadas, de autoritarismo governamental. E tudo isso com uma visão extremamente pessimista, de fazer os irmãos Dardenne parecerem uma dupla de Pollyannas. Foi uma porrada na cara, ou um soco no estômago.
Por isso, as expectativas eram altas quando fui ver esse novo "Na Neblina". E Loznitsa não decepcionou, mostrando ser um dos cinco cineastas mais interessantes do cinema atual. Ao centrar sua narrativa na Bielo-Rússia ocupada pelos alemães em 1942, o autor tem aqui as limitações de seguir uma narrativa propriamente dita - o roteiro é baseado em um romance. Mas o faz de uma maneira tão sublime, e bem menos hermética do que o filme anterior. Aliado à fotografia primorosa e aos planos formidáveis, Loznitsa parece se propor o desafio de usar elementos autorais e artísticos para, enfim, contar uma história no fundo muito simples, mas que evoca elementos já presentes anteriormente em seu cinema, como a relação entre a natureza bruta e a brutalidade das relações, sem fazer quaisquer concessões. Uma via-crucis sem redenção final.

domingo, 28 de outubro de 2012

Camp 14 - Total Control Zone (Marc Wiese, 2012)



O documentário "Camp 14 - Total Control Zone" abre tantas frentes de discussões e evidencia tantas peculiaridades que a história de Shin Dong-Huyk, que nasceu e viveu até os 23 anos em um "campo de prisioneiros" na Coréia do Norte, parece nunca esgotar o tema proposto. Não que o diretor Marc Wiese tivesse alguma intenção de ser definitivo - ele deliberadamente se foca na aterradora narrativa de Dong-Huyk, apenas com intervenções de dois ex-colaboradores do serviço de repressão desses campos de prisioneiros, tão abundantes naquele país. Como esses dois desertados do regime escaparam do país e como é a vida que levam na Coréia do Sul? Como foi a adaptação de Dong-Huyk ao seu novo mundo, do outro lado das grades do campo? São histórias que, por si só, já renderiam filmes próprios.
O que permanece, então, é a descrição crua da vida em um campo que, em última análise, é um "campo de morte" e uma sutil genealogia da degeneração de valores morais e éticos que regimes totalitários (e, nesse caso, sua representação mais extrema nos dias que correm) promovem. Um mundo onde a vigilância e denúncia de comportamentos "impróprios" de seus familiares fazem mais sentido do que a ideia de amor para com eles. Wiese pouco intervem no que o ex-prisioneiro tem a dizer - e, pensando bem, por que deveria? É certo que ele usa elementos que são clichês do gênero de documentários, como longas tomadas silenciosas com os entrevistados fazendo banalidades, e só faz uma intervenção irônica ao longo do filme - muito boa, por sinal, quando, após Dong-Huyk prestar a parte mais dramática de seu depoimento (o testemunho da execução de sua mãe e de seu irmão), o coreano é mostrado visitando uma alegre instituição em Los Angeles que se ocupa em defender os direitos humanos na parte norte da península asiática - como que para situar o espectador na quase impossibilidade de se compreender todo o significado do estado de coisas no país dos Kim. E é disso que se trata o filme, afinal de contas: a conquista do objetivo de todo regime comunista - a criação de um "novo homem", com princípios e valores próprios, sempre às expensas do que, no fim, nos faz humanos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Racionais MC's - Diário de um Detento



No dia 2 de Outubro de 1992, às vésperas das eleições municipais, o governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, temendo sair arrasado nas urnas após uma rebelião descontrolada no presídio do Carandiru, autorizou a invasão do complexo penitenciário pela Polícia Militar Estadual, sob a liderança do coronel Ubiratan Guimarães. O resultado disso se tornou célebre: 111 presos indefesos mortos - quase todos pretos. É provável que o número real de vítimas tenha sido maior. Mas o absurdo não parou por aí: Fleury Filho, que deveria ter ido para a cadeia, conseguiu eleger-se deputado federal em 1998 e em 2002. O coronel Ubiratan foi eleito deputado estadual em São Paulo em 2002, com o número 14111.
Em 1998, o grupo de rap Racionais MC's conquistou reconhecimento nacional com a repercussão do álbum "Sobrevivendo no Inferno" e do assombroso hit "Diário de um Detento". A MTV consagrou o grupo na premiação do VMB daquele ano. Os playboys se renderam aos manos, embora o massacre se torne cada vez mais uma passagem desbotada (mais uma) na nossa história.

domingo, 30 de setembro de 2012

Album Cover: Iggy Pop (Préliminaires, 2009)



Em 2007, Iggy Pop emprestou sua voz a um dos personagens da excelente animação "Persepolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. Em retribuição, Satrapi ilustrou a capa do álbum de 2009 da Iguana, deliciosamente intitulado "Préliminaires", trabalho um pouco frouxo, mas (por que não?) bastante ousado na discografia do velho punk.